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Domingo, 01 Janeiro 2006 11:55

2006 - Mamma Bahia - Ópera Negra Lídia de Oxum

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Bahia no Século XVI – O Encontro das Raças

Começaremos com chegada dos conquistadores portugueses no novo mundo; a primeira missa e a sua assistência pelos nativos; o mito caramuru e sua integração com os índios, inclusive com Paraguaçu, futura Catherine do Brasil sua esposa; falaremos de Martim Afonso e a princesa expedição colonizadora; a fundação de salvador(primeira capital do Brasil) por tome de Souza; e finalmente, o inicio do trafico de escravos com o aparecimento dos primeiros engenhos de cana de açúcar.

Prelúdio do legado baiano

Quando não raptados para venda e troca ou em guerras ancestrais, os negros viviam seu legado na áfrica. Enquanto isso, num dia qualquer do século XVI, um português naufragava na Bahia de todos os santos, lugar dos homens nus avermelhados apreciadores de carne humana.

Diogo Álvares seria banquete de índio se não fosse esperto: usou a imaginação e com seu mosquete atirou para o alto acertando uma ave, ensinando o que era medo aos nativos antropófagos – Nascia o mito caramuru, o filho do trovão, o pai do fogo e da morte – que assustados trouxeram –lhe mimos e Paraguaçu, a filha do cacique.Caramuru virou genro do rei e sócio das riquezas da terra, Paraguaçu ao contemplar a Europa virou Catherine du bresil.

Para o novo mundo veio também o fogo da cobiça alimentado pela madeira (pau – Brasil) que lhe conferiu o nome. Para cometer as investidas francesas, ao longo da costa brasileira a coroa portuguesa enviou uma poderosa expedição para colonizar. Martim Afonso, amigo do rei Dom João III foi escolhido para promover a lei e a ordem, por fim, trouxe a devastação das matas, a escravização indígena e a infâmia inominável do trafico negreiro, agregados no longo e rendoso reinado da cana.

Para centralizar o poder, construir uma fortaleza, visitar e proteger as demais capitanias, redistribuir terras, regulamentar a relação entre colonos e nativos e incentivaram excursões ao interior, foi mandado o fidalgo Tome de Souza . Logo se faz uma vila – o embrião de Salvador - , em seguida , a princesa capital do Brasil.

Com o governador-geral vieram também os primeiros jesuítas, chefiados pelo padre Manuel de Nóbrega; para o alivio dos índios e desespero dos bantos. E os negros?Na Bahia desembarcaram do ventre da besta e mesmo os que eram nobres, como mercadorias foram vendidos, trocados – um instrumento de trabalho – , reduzidos a condição de coisa, e eles plantaram e moeram cana, derrubaram matas e semearam mudas; foram as mãos e os pés dos senhores de engenho.

BAHIA NO SECULO XVII

No século xvii se fará um panorama geral do barroso baiano através de suas igrejas,arquitetura , pelourinho, pontuando com as figuras de padre Antonio Vieira e Gregório de Mattos, e mais a presença dos holandeses na Bahia, dos primeiros quilombos e conexão com palmares.

O ciclo da cana gera a cultura afro barroca

A colônia lusitana sob o reinado espanhol (Felipe II e III), alavancou sua posição no jogo das trocas comerciais, inclusive, através do suplicio dos navios tumbeiros, integrando se a trama do império atlântico. No século XVII, encerrado o ciclo do guine, começa o ciclo de angola, durante o qual cerca de seiscentos mil escravos foram trazidos para o Brasil. E se a mandioca destacava se na economia de subsistência da colônia em virtude das dificuldades de importação de alimentos da Europa, nessa época, o fumo passou a servir de escambo na áfrica, trazendo para o Brasil a mercadoria que foi o fundamento econômico e o eixo de todo o sistema do trabalho da promissória e aristocrática sociedade do açúcar.

A mestiçagem já era uma realidade na colônia, formando na cidade da Bahia o que podemos chamar de cultura afro barroca, restolhado da necessidade de uma releitura do barroco lusitano a realidade tropical gerando produtos originais, como na expansão da antropologia de padre Antonio Vieira e nas criações da sátira popular de Gregório de Mattos, o boca do inferno, tudo isso, misturado ao africano , que mesmo experimentando a agruras dos navios da danação e torturas da escravidão, soube abastecer as plantações e os engenhos, depois as minas e as mesas, a casa e a cama dos senhores, com sua riqueza e densidade cultural.

Na Bahia se formou uma civilização dom hábitos e tradições que foram primordiais para a formação social do mundo lusitano em brasilidade – com a ajuda inconsciente do negro. Então, tudo o que foi erigido modestamente ainda no século xvi foi, através da exploração da mão de obra escrava, que adquiriu formas arquitetônicas mais bostas, principalmente na área no pelourinho, nos séculos subseqüentes, aparadas pelo lucrativo ciclo da cana de açúcar e depois pelo ciclo do fumo. Paradoxalmente, neste mesmo cenário, os negros transitavam conduzindo sinhás em cadeirinhas luxuosas, quando não, estavam sendo acoitados no objetivo que também deu nome ao lugar.

A Espanha e Holanda se estranharam no inicio do século xvii, por causa dos engenhos de açúcar do nordeste. E os batavos para prejudicar os interesses comerciais da Espanha na América e na áfrica fundaram, em 1621, a companhia das índias ocidentais.

Velas holandesas portam na Bahia para recuperar o que haviam perdido e o bombardeio, ocorre em 9 de maio de 1624. A população em pânico foge, deixando a cidade deserta, facilitando também a fuga de muitos escravos, pois os senhores não podiam se prestar a sair na captura dos negros fujões. Logo, podemos acreditar na possibilidade de que foi mais ou menos neste período que , se não surgiram os primeiros quilombos, no mínimo, fortaleceu a migração para os que já existiram. (um dos mais conhecidos na Bahia foi o quilombo do buraco do tatu) e através da organização característica destes redutos, provavelmente foram feitas conexões, ate mesmo, com o maior deles – palmares- situado na serra da barriga.

Bahia no século XVIII

No século xviii, mostraremos a chegada dos povos sudaneses, a implantação do candomblé da alaketu , a imposição religiosa e o sincretismo, fechando com a conspiração do búzios (alfaiates).

A sobrevivência da herança africana

Já no alvorecer do século xviii, a rota escravista se acentua na costa do ouro, após a Bahia deter o monopólio do fumo, mercadoria bastante apreciada naquela região africana, tornado se assim o principal destino dos povos jeje e nagô ioruba, e também , dos maometanos de cultura islâmica, dos quais, os haussas se destacam. Altos e fortes eram possuidores de um apurado espírito de liberdade, promovendo sempre , revoltas de escravos contra senhores – outra contribuição do negro a genética do povo baiano –, que pode muito bem esta por trás do sentimento que fez reunir em 1798, a burguesia liberal com a plebe , com a massa, com os homens de cor e escravos, gente pobre e deserda, para reagir revolucionariamente contra a escravidão e a desigualdade social- movimento conhecido como conjuração baiana.

Para sobreviver das lamurias da escravidão os negros se prenderam a sua herança religiosa. Então, inicia se o candomblé na Bahia com chegada dos primeiros negros oriundos principalmente do Sudão. A palavra candomblé vem da expressão kandom be lê(segundo a professora yeda de pessoa de castro que foi diretora do centro de estudos afro – orientais da Bahia) de origem banto que significa pedir a intercessão dos deuses.

Contudo, a sua disseminação deve-se principalmente ao grande contingente de negros nagôs e iorubas e a hegemonia ritualística desses povos , movida pela resistência incontestável constituída na nação do keto , resultando na casa de santo mais antiga da Bahia, a do candomblé de alaketu.

Eis que surge o mito das mães de santo depositarias dos axés. Sacrifícios de animais e oferendas de alimentos são feitos aos deuses durante as cerimônias privadas. Os deuses

são invocados e chamados a voltar a terra pelas canções, durante danças simbólicas execu

tadas pelas filhas e filhos de santo, no corpo dos quais se encarnam os diversos orixás. Cada iaô e possuída somente pelo orixá ao qual e consagrado, quando da sua

iniciação.

O africano, mesmo impedido, conseguiu driblar a imposição religiosa dos seus opressores e perpetuar o seu culto mesmo tendo este que sofrer adaptações convenientes, seja pela dissolução lingüística e litúrgica, resultado da mescla de povos, seja pela associação dos orixás (deuses negros) aos santos católicos. Mesmo assim, tais ajustes foram incapazes de quebrar a corrente que originou a religião africana mais difundida no Brasil.

Bahia no século XIX

Mostraremos a importância do dia 2 de julho no calendário baiano e a figura do caboclo como ícone representativo da luta pela liberdade; a revolta dos m,ales, implantação do culto de xangô, guerra dos canudos, culminando com a opera negra – lídia de oxum ambientada no recôncavo baiano.

A liberdade no dna do povo baiano

O Brasil se viu livre de Portugal.Pela voz de dom Pedro i , entretanto, o único pais independente da América do sul ainda se baseava no trabalho escravo. A sociedade ainda se caracterizava pela discriminação racial e as desigualdades econômicas extremas. Tal contra senso resultou em conflitos entre portugueses e brasileiros na Bahia e já na semana seguinte ao grito do Ipiranga, iniciou se confrontos que se prolongaram por quase um ano - a guerra da independência.

O conflito terminou no dia 2 de julho de 1823, quando forcas brasileiras enfim foram capazes de expulsar os portugueses. Tal levante tornou-se a data cívica mais comemorada em toda Bahia – suplantando o sete de setembro. Nasce aqui a figura do caboclo, que no imaginário popular representa o nativo do pais; símbolo de patriotismo contra o dragão portugues; venerado pelo povo cuja maioria e de negro; forte, puro e bondoso, foi elevado a condição de santo ao ser envolvido no culto africano, dando origem ao candomblé de caboclo.

Neste universo de conflitos que permeou a Bahia no século xix estavam negros haussas, possuidores de um apurado espírito de liberdade, que pouco se conformava com os desmandos dos seus senhores (mitos se tornaram escravos de ganho)e , sempre promovendo revoltas, protagonizaram uma rebelião de caráter racial, contra a escravidão e a importância da religião católica, movimento que ficou conhecido com a revolta dos males. Apesar de tudo, o sincretismo já era uma realidade, o catolicismo já se misturava aos cultos africanos, tanto e que pode ser visto como exemplo, o oxe (machado duplo) de xangô plantado sobre a imagem de são jerônimo.

Xangô foi o orixá que os negros transportaram para o Brasil e que passou a designar o local das cerimônias ritualísticas tal seu apego. E isso se deve entre outras coisas, pelo fato de que antes de seu santo, xangô e a personagem central de vários mitos heróicos dos iorubanos.seu culto curiosamente ultrapassou, em importância, o de outros santos, talves pelo temor e mistério que rodeia este orixá.; sem duvida, sua ação sobre o raio, pelo seu efeito destruidor como pelo resplendor que o acompanha e o ruído que se segue, estrondoso nas régioes intertropicais, fez estender seu culto em habitat brasileiro.

Falar de liberdade sem citar canudos abre-se uma lacuna na historia. A sangrenta batalha que reuniu jagunços (na maioria mestiços) no interior da Bahia para lutar revoltosos contra a miséria e a fome que assolava o sertao baiano no final do século. O desfecho da guerra foi a destruição de canudos pelas forcas policiais. E Antonio conselheiro líder dos sertanejos se tornou praticamente uma especie de santo nordestino. E ainda hoje a fé popular o reverencia, com um fervor raramente igualado. Canudos se transformou numa espécie de símbolo de resistência, adquirindo uma dimensão mitológica no imaginário do baiana e do povo brasileiro.

Lídia de oxum

No final do século xix chega na Bahia, lourenço de aragão, o filho de um poderoso barão de cana de açúcar, que foi estudar direito em Coimbra e voltou contaminado com idéias libertarias do final do século. Ele chega também no auge de uma rebelião de escravos, conhece lídia de oxum e se apaixona pela bela mestiça, a filha de bonfim, chefe dos negros, amada pelo negro tomas de ogum, um líder revolucionário. Na historia, o triangulo amoroso e apenas e pano fundo para os anseios e ideais de liberdade que a raça negra (população majoritária) sempre almejou e a sua concretização so aconteceu, se e que realmente aconteceu, quando no momento d levante final entre os negros e brancos veio a noticia de que a princesa isabel havia assinado a lei áurea proclamando a abolição da escravatura o que teria colocado um ponto final no final no impasse. A busca pela igualdade racial que a obra retrata com propriedade, parece ter delineado o mapa do dna do povo baiano que durante os anos conviveu com o amor entre as diferenças e acabou tendo um papel fundamento na formação das cores, tons e matizes de nossa aquarela.

A Bahia atual

Mostraremos o resultado do legado africano e sua influencia na cultura baiana que se tornou sinônimo de brasilidade.

Mãe de todos

Como seria a Bahia sem o legado da cultura africana? Talvez não se comeria o que se come hoje, não rezaria o que se reza e como se reza, não teria o gingado na dança o colorido no arte, tão pouco, a forca na musica não fosse a riquíssima herança cultural trazida pelos milhares de escravos vindos da áfrica, sobreviventes do ventre da besta – o porão dos navios negreiros. E mesmo que no inicio tenha havido apenas uma adaptação dos padrões de comportamento do negros a condições de vida a que foram submetidos, na Bahia, parece que os demais povos e que se viram na contingência de absorver e adotar inúmeras tradições africanas.

O jeito de pensar e agir do africano traçou com pinceladas sutis e definitivas a maneira de viver e conviver na Bahia. A forca vital da sua cultura foi mais forte do que a chibata e a água benta, e o sangue que se adicionou no decorrer do tempo as duas outras matrizes foi fundamental para o singularidade da cultura baiana – a mama áfrica foi mãe da Bahia e a mama Bahia, mãe de todos. Ser negro e ser baiano e vice versa, pois baiano não e apenas nascer na Bahia, e sim, um estado de espírito, uma filosofia, logo ser negro também, e brancos podem ser negros, e índios ser negros. Os negros podem ser tudo na concepção de vida baiana: ser historia, símbolos e lendas, som, musica e dança; e podem ser opera – opera negra ... e alafia!!!

Por isso, salve todos os índios, brancos, negros e mestiços que ilustraram a historia da Bahia. Salve os baianos legítimos ou aqueles que carregam a Bahia na alma, que elevaram a cultura negra – a cultura brasileira – para âmago das futuras gerações.

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